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26 de dezembro de 2012

SONU ACADÊMICO #6



      (Fonte: The Atlantic)

OS EFEITOS DA PRIMAVERA ÁRABE E A DIFICULDADE EM SE LEGITIMAR UM GOVERNO DEMOCRÁTICO NO EGITO



        Há exatos dois anos, o mundo inteiro acompanhou as manifestações populares ocorridas em países do Oriente Médio e norte da África, manifestações estas que buscavam maior democracia, participação popular e respeito a direitos humanos, sendo chamadas por muitos de “Primavera Árabe”.

     Todos ficaram estupefatos ao ver o vendedor ambulante de frutas e verduras Muhammad Bouazizi incendiar seu próprio corpo em frente ao palácio do Governo Tunisino, por ter sua licença cassada e se ver impossibilitado de exercer sua profissão. A partir desse momento, Bouazizi tornou-se o símbolo da Primavera Árabe, levando grande parte da população a queimar pneus e gritarem palavras de ordem, exigindo empregos e liberdade. A Primavera Árabe mostrou ao restante do mundo que as populações de países como Tunísia, Líbia e Egito também buscavam, da maneira que lhes foi mais apropriada, algo que para os ocidentais é obviamente necessário para o desenvolvimento de um Estado: a Democracia.

         Após meses de protestos e manifestações, em sua maioria facilitados pelo uso das redes sociais (vide SONU Acadêmico #2), além de repressão violenta por parte do Estado e milhares de mortos de ambos os lados, a população egípcia conseguiu, em apenas 18 dias, derrubar o Governo do Ditador Hosni Mubarak, que estava no poder há 30 anos. Tal feito apenas foi alcançado com o apoio das Forças Armadas, que interferiram na queda de Mubarak e, posteriormente, instauraram um governo de coalizão de caráter temporário, com o intuito de preparar o estado egípcio para uma democracia.

       Após novas manifestações na Praça Tahrir contra um Governo militar que aparentemente não pretendia abandonar o poder, foram realizadas eleições parlamentares, cujo resultado indicou a maioria dos assentos para o partido islâmico “Irmandade Muçulmana”. Mesmo com inúmeras suspeitas de compra de votos, Mohamed Morsi, representante da Irmandade Muçulmana, assumiu o cargo de presidente egípcio, eleito democraticamente pela população que, um ano antes, houvera insurgido pelo direito ao sufrágio livre.

       No entanto, o cenário da Primavera Árabe no Egito - a Praça Tahrir -, continua, depois de quase dois anos, ocupada por manifestantes descontentes com o novo governo pedindo a queda de um ditador. O autocrata que o povo quer ver pelas costas, agora, é outro: Morsi está sendo acusado pelos manifestantes de ter maculado os ideais dos levantes populares de 2011.

        Os levantes surgiram após a promulgação de um decreto presidencial de 22 de novembro de 2012 que, na prática, garante ao presidente Morsi poderes acima do Poder Judiciário. Milhares de manifestantes cristãos, muçulmanos seculares, liberais e socialistas protestaram no centro do Cairo contra os “superpoderes” autoconcedidos ao Poder Executivo. Mais recentemente, a Assembleia Nacional Constituinte, dominada pelos islamistas, ratificou os 230 artigos de uma Constituição que aproxima mais ainda o Estado egípcio à religião Muçulmana, conferindo diversos poderes a Clérigos muçulmanos, permitindo a censura, além de desrespeitar os direitos humanos, estes reconhecidos internacionalmente.

       Surge, então, um questionamento que vai além dos fatos e adentra na esfera jurídico-política: até que ponto é legítimo um poder democraticamente eleito, mas que não é envolvido de fundamento jurídico? Será possível (e preferível) ter-se um Estado Democrático, porém não de Direito?

        Cabe, neste azo, relembrar um famoso caso em que um presidente eleito democraticamente, por meio de um partido nacional-socialista, modificou todo o ordenamento jurídico de um país, desconsiderando ideais de direitos humanos e cooperação entre os povos, criminalizando populações pelo simples fato de não serem da raça ariana. Estamos falando de Adolf Hitler, presidente eleito pelo povo alemão em 1933, pelo Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

      Comparativamente, em ambos os casos, o chefe do Poder Executivo, eleito democraticamente, extrapola os limites jurídicos e fere de morte a divisão e independência entre Poderes. Ao conferir a si mesmo poderes que ultrapassam os limites do Poder Judiciário, o Presidente acaba se tornando um ditador e o povo, que a princípio seria o detentor do Poder Público, passa a ser vítima de atrocidades e desmandos.
 
      O Estado de Direito impõe a seus representados e representantes a obediência à lei, aos preceitos normativos, seja no âmbito público seja no privado, sempre respeitando e seguindo os preceitos estabelecidos em uma Constituição. Esse conceito surgiu quando do Estado Liberal e da necessidade da burguesia de buscar proteger-se contra as arbitrariedades da Nobreza Aristocrática da época. Já o Estado Democrático surgiu, no contexto do Estado Social, para buscar legitimar o poder deste, promovendo não apenas uma liberdade negativa (como no Estado de Direito, em que o cidadão se distanciava do Estado), mas uma liberdade positiva, que representa o exercício democrático do poder, que por fim o legitima.

       Mais do que uma junção do Estado Liberal com o Estado Social, o Estado Democrático de Direito assume um papel inovador, buscando legitimar o Poder Estatal, ao mesmo tempo em que este deve ser regulado pela Constituição e por leis, pelo próprio Estado criadas, decorrentes, porém, da representação popular.
 

       HABBERMAS (2003, p.68)
já havia se expressado quanto à função inovadora do Estado Democrático de Direito:
É que o Direito não somente exige aceitação; não apenas solicita dos seus endereçados reconhecimento de fato, mas também pleiteia merecer reconhecimento. Para a legitimação de um ordenamento estatal, constituído na forma da lei, requerem- se, por isso, todas as fundamentações e construções públicas que resgatarão esse pleito como digno de ser reconhecido.
  
     De acordo com ZIMMERMANN (2002. p. 64-65), sob este aspecto, o Estado Democrático de direito é caracterizado por uma sociedade política baseada numa Constituição escrita, que seja reflexo do contrato social estabelecido entre todos os membros da coletividade; pelo reconhecimento dos direitos fundamentais que devem ser tratados como inalienáveis da pessoa humana; pela preocupação com o respeito aos direitos das minorias; e pela igualdade de todos perante a lei.

    Não se está, no entanto, respeitando os limites no regime presidencial e democrático no Egito. O Presidente Muhhamed Morsi assume diversos poderes absurdos, fazendo questão de posicionar-se acima do Poder Judiciário, desconsiderando, dessa forma, anseios dos manifestantes da Primavera Árabe, que ansiavam por escapar de políticos dotados de poderes suficientes para, inclusive, desrespeitar direitos humanos reconhecidos internacionalmente.

     Por isso, esperamos que, a tempo, não tenham sido em vão as manifestações e protestos presenciados durante a Primavera Árabe e que as instituições políticas de países como o Egito não sejam engolidas pela ganância ou por interesses individualistas e religiosos, como da Irmandade Muçulmana, que pretende balizar a nova Constituição com um teor religioso, a despeito do intento das minorias, como cristãos, socialistas, liberais e muçulmanos seculares.



Ricardo Antônio Maia de Morais Júnior
Secretário de Finanças da SONU 2013



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REFERÊNCIAS


HABERMAS, J.; HÄBERLE, P. Sobre a legitimação pelos direitos humanos. In: MERLE, J.; MOREIRA, L.(Org). Direito e legitimidade. São Paulo: Landy, 2003, p. 68.

ZIMMERMANN, A. Curso de direito constitucional. 2 ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2002.

31 de outubro de 2012

SONU ACADÊMICO #2



O IMPACTO POLÍTICO DAS MÍDIAS SOCIAIS NOS MOVIMENTOS REVOLUCIONÁRIOS CONTEMPORÂNEOS

              
Em uma de suas últimas manifestações públicas para a mídia, Eric Hobsbawm, em análise dos eventos estrondosos de 2011, congratulou a perspectiva de ainda ser possível derrubar regimes ditatoriais pela ampla manifestação popular, frisando o papel de uma nova ferramenta revolucionária: as mídias sociais.1
              
O autor constatou uma interessante analogia histórica entre a denominada “Primavera Árabe” e a Revolução parisiense de 1848. Ambas explodiram num país e se difundiram rapidamente ganhando proporções continentais mediante amplo apoio popular. As diferenças, contudo, são várias. A Europa da primeira metade do século XIX era o centro da Revolução Industrial, tendo os movimentos de 1848 sido levantados por massas operárias. Hodiernamente, a classe média, os movimentos estudantis e religiosos, munidos de poderosas mídias sociais, movem os levantes no mundo islâmico. A Revolução Digital da década de 1990 demonstra hoje mais que um salto tecnológico, revela seu crescente potencial político.
              
O próprio termo “mídia social”, porém, carece de definição precisa ante seu caráter recente conforme reconhece Bryan Eisenberg:²
              
Nós ainda estamos tentando chegar a um acordo quanto à definição de mídia social. (...). Meu maior problema com o termo é ele não tratar de mídia no sentido tradicional. Twitter, Facebook e LinkedIn e outros não são mídia; eles são plataformas de interação e compartilhamento de informações. Toda a mídia tradicional – impressa, transmissão, pesquisa e assim por diante – oferece plataformas para apresentação de anúncios próximos e ao redor de conteúdo relevante. Mídias sociais são plataformas para interação e relacionamento, não para conteúdo e publicidade.                
                             
Clay Shirky destaca ainda a mudança paradigmática que as mídias sociais operaram no relacionamento humano com a transmissão e produção de informações. A internet teria agregado a capacidade de formar grupos e proporcionar o diálogo de uma forma ampla após integrar em sua estrutura todas as outras formas de mídia pré-existentes.3

Em seu aspecto político, a chamada “Primavera Árabe” demonstrou cabalmente o poder de mobilização dessa nova forma de mídia, permitindo ainda um melhor estudo acerca da influência política que novas tecnologias podem ter.

A Universidade de Washington realizou análises estatísticas sobre o papel que redes sociais, como Facebook e Twitter, desempenharam no curso dos movimentos revolucionários no Egito e Tunísia. No caso egípcio, por exemplo:4

Descobriu-se que, à medida que a pressão pela derrubada de Mubarak crescia interna e internacionalmente, houve uma alteração geográfica na origem dos tweets sobre mudanças políticas no Egito. Duas semanas antes de sua renúncia, aferiu-se que 34 % dos tweets sobre mudanças políticas estavam vindo de pessoas que se diziam estar fora da região. Contudo, ao passo que a participação popular nos protestos políticos cresceu na semana anterior à renúncia, a contribuição relativa de estrangeiros diminuiu para apenas 12 %. Em outras palavras, a vasta maioria de tweets vinha de pessoas ou de dentro do país, ou da região ou que se negavam a identificar sua localidade.

O Facebook, por sua vez, antes mesmo dos eventos de 2011 já recebia referências como a seguinte: “(...) a coisa mais importante que o Facebook pode fazer é dar às pessoas ferramentas que lhes permitam se comunicar de forma mais eficiente e prosperar em um mundo no qual estamos cada vez mais cercados de informações, não importa o que fizermos”.5

A consciência do poder e o potencial das redes sociais estão, portanto, consolidados, tendo os eventos ocorridos no Norte da África em 2011 colaborado para corroborar essa visão. Todavia, não seria razoável conceber as mídias sociais, gênero no qual as redes sociais se incluem, como instrumento infalível e desprovido de efeitos adversos, pois “fatores que aparentam impactar sobre seu uso bem sucedido incluem tamanho, diversidade étnica e nível educacional da população, existência de uma infraestrutura de telecomunicações moderna, bem como a proporção de censura de que se vale o regime vigente. As mídias sociais têm impacto limitado, na melhor hipótese, sobre um fator relativo a revoluções nascentes”.6    
              
Acerca dos aspectos negativos das relações virtuais contemporâneas, em contraponto ao até agora apresentado, Andrew Keen comenta: “A internet se tornou um gigantesco espelho que reflete nossos desejos, interesses e inclinações. Em vez de serem verdadeiramente sociais, as redes ‘sociais’ de hoje permitem a todos nós criarmos comunidades virtuais que refletem nossos próprios interesses e que, na verdade, nos separam das nossas comunidades físicas”.7 O autor inglês acresce que a capacidade de mobilização política das novas mídias, embora confira grande suporte a movimentos políticos incipientes, não lhes confere a coesão e consistência suficientes para se perpetuarem.
              
Esses argumentos nos levam à reflexão acerca do papel que as novas mídias ainda têm a consolidar no debate político moderno. Certamente conferem às pessoas o poder de expressão e de associação necessários para contestar o status quo do regime vigente. Contudo, considerando seu caráter instrumental de ferramentas transmissoras e produtoras de dados, é importante ressaltar que as mídias sociais não possuem um valor intrínseco, ou seja, não são boas ou ruins em si. Elas serão o que delas façamos, sendo pouco provável que possam suplantar as formas de organização política clássicas, oferecendo-lhes, não obstante, um novo e poderoso âmbito de manifestação. 

              

               William Magalhães Lessa
               Secretário Acadêmico da SONU 2013


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REFERÊNCIAS            

              
1. WHITEHEAD, Andrew. Eric Hobsbawm on 2011: “It reminds me of 1848…”. BBC News Magazine. 23 de dezembro de 2011. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/news/magazine-16217726>. Acesso em 05.10.2012.
2. EISENBERG, Bryan in COHEN, Heidi. 30 Social Media Definitions, n.º 10. Disponível em: <http://heidicohen.com/social-media-definition/>. Acesso em 22.10.2012.
3. SHIRKY, Clay. How social media can make history. Palestra proferida para o TED – Ideas worth spreading. Junho de 2009. Disponível em: <http://www.ted.com/talks/clay_shirky_how_cellphones_twitter_facebook_can_make_history.html>. Acesso em 21.10.2012.
4. HOWARD, Philip N. et al. Opening Closed Regimes: What was the Role of Social Media During the Arab Spring? Working Paper. Project on Information Technology & Political Islam – PITPI, pág. 16. Disponível em <http://dl.dropbox.com/u/12947477/publications/2011_Howard-Duffy-Freelon-Hussain-Mari-Mazaid_pITPI.pdf>. Acesso 25.10.2012.
5. KIRKPATRICK. David. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. O Efeito Facebook: Os bastidores da história da empresa que conecta o mundo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011, pág. 351.
6. SAFRANK, Rita. The Emerging Role of Social Media and Regime Change. Proquest Discovery Guides. Março de 2012 Disponível em: <http://www.csa.com/discoveryguides/social_media/review.php>. Acesso em 24.10.2012.
7. KEEN, Andrew. A nova forma do autoritarismo virtual. Revista Época, N.º 733, p. 108, 109, jun. 2012.

15 de outubro de 2012

SONU ACADÊMICO #1


                                                                                                                                                                                 (Foto: Reuters)



AS MANIFESTAÇÕES ANTI-OCIDENTAIS, O OCIDENTE E A DESINFORMAÇÃO


No decorrer do último mês, a atenção do mundo voltou-se para uma crescente onda de protestos antiocidentais violentos, que tomaram parte no chamado “Mundo Islâmico”. O estopim dessas manifestações é reputado ao sentimento de revolta "dos muçulmanos" frente a um vídeo amador norte-americano, postado no websítio Youtube, cujo teor é eminentemente anti-islâmico. Mas seria isto assim tão simples? Ou tais manifestações seriam apenas o sintoma de questões de maior monta?

Primeiramente, é necessário abordar a equivocada mentalidade dicotômica que domina o discurso de boa parte não só da mídia internacional, como de inúmeros comentadores políticos. Ao afirmar que "os muçulmanos" ou "os árabes" (termos, em absoluto, diferentes)1 estão destruindo lojas e invadindo embaixadas, está-se fazendo uma generalização mais que indevida. Ora, as ações desses manifestantes extremistas e minoritários representam a visão "d'Os Muçulmanos" ou "d'Os Árabes" tanto quanto as opiniões de Nakoula Basseley Nakoula, o suposto realizador do condenável filme amador, – ou mesmo de George W. Bush – representam as nossas, Ocidentais. Esta concepção rasa do “nós” versus “eles”, ainda que não saibamos quem são de fato estes últimos - e o pior, nem procuremos nos informar -, ajuda a fomentar o sentimento de mútua exclusão, caminho que leva inevitavelmente ao medo e ao ódio. Sobre este ponto, vale citar Paulo Daniel Farah (2001, p. 9):

Todos os países muçulmanos e seus principais líderes religiosos condenaram as ações terroristas [sobre os ataques aos Estados Unidos da América em 11 de setembro de 2001]. (...) Apesar disso, o saudita Ussama bin Laden, acusado de orquestrar os ataques, e defensores da confusa e frágil teoria do ‘choque de civilizações’ anunciaram tratar-se de um embate entre o Islã e o Ocidente, como se fosse possível reduzir conceitos tão complexos – e, por isso, temas de divergências – a dois campos excludentes. As tentativas de polarizar o conflito logo renderam resultados. O discurso maniqueísta do presidente George W. Bush, que anunciou uma ‘luta do bem contra o mal’, a aprovação de leis que permitem a detenção de estrangeiros com base em critérios puramente étnicos ou religiosos e as declarações do premiê da Itália, Silvo Berlusconi, sobre a ‘superioridade da civilização ocidental’ serviram de pretexto para ações de xenofobia e intolerância religiosa.

O vírus da desinformação assola tanto o mundo ocidental, como o mundo islâmico,2 donde esta generalização acerca da identidade dos manifestantes, cujos mais violentos pertencem a grupos salafistas extremistas e minoritários, é apenas um exemplo. Da parte dos manifestantes, jornalistas reportaram conversas com  jovens participantes e revelaram que muitos não possuíam motivações políticas, nem sabiam ao certo qual o conteúdo do filme contra o qual estavam protestando - mas tinham certeza de que os EUA e Israel estavam por trás da obra.3

Neste ponto, ficou clara a não diferenciação por parte dos manifestantes (se deliberada ou não, resta a dúvida) entre as ações de um indivíduo de nacionalidade norte-americana e o Estado norte-americano. As palavras de ordem gritadas pelas ruas de Benghazi e Cairo, entre outras, e a absurda violação de Embaixadas norte-americanas, inclusive em países da África como o Sudão, demonstram a desinformação desta parcela da sociedade. O governo norte-americano reagiu acertadamente condenando o conteúdo do filme, além de declarar expressamente o (óbvio) não envolvimento com sua produção. As autoridades diplomáticas norte-americanas no Paquistão chegaram até a adquirir espaço na TV estatal paquistanesa para transmitir vídeos do Presidente Barack Obama e da Secretária de Estado Hillary Rodham Clinton condenando veementemente o filme, bem como a violência dos protestos.4

Os fatos acima enumerados servem para embasar o argumento da desinformação e suas implicações. Entretanto, não podemos negar a existência de outros fatores, que fortemente influenciaram o pano de fundo dos protestos.

É incontestável que a política externa de países ocidentais em relação ao Oriente Médio no passado cultivou a semente da rejeição de parte da população da região vis-à-vis o Ocidente, com destacada relevância a dos Estados Unidos da América, Reino Unido e França. O intervencionismo francês no século XX em países como Síria e Líbano,5 bem como a Guerra do Golfo ou ainda as invasões do Afeganistão e Iraque pelos Estados Unidos da América, estas fracamente justificadas pelo argumento frágil e confuso da “guerra ao terror” no século XXI, são apenas alguns exemplos de políticas danosas e condenadas por nacionais desta região.

Acrescente a estas prejudiciais práticas, discursos de políticos e líderes religiosos ardilosos, com habilidade oratória suficiente para culpar as altas taxas de desemprego, pobreza e falta de oportunidades inteiramente nas intervenções dos ocidentais e em seu “capitalismo canibal”, ao mesmo tempo eximindo-se de sua parcela de responsabilidade pelo alto nível de corrupção governamental, para incitar mais ainda as frustrações desses povos e apresentar, em uma bandeja de prata, o bode expiatório, o alvo ideal para as suas angústias.

Quem não acredita nessa possibilidade, talvez não conheça a história da ascendência do nacionalismo radical e de Hitler no pós-guerra de 1919, no contexto de uma Alemanha economicamente devastada por uma inflação galopante, e socialmente desmoralizada. No caso destes, também se apontou uma resposta simplificada: culpar os judeus.

Manifestações de rejeição ao mundo ocidental não são novidade. De fato, remontam às investidas colonialistas por parte desses países no âmbito do Oriente Médio, África e Ásia dos séculos XIX, e mesmo antes disso. Na fala de Max Fisher:

In August 1857, a century before the United Nations would declare the Israeli state in what had been Palestine, before British and French diplomats would formally carve up the Middle East, before the U.S. would back a coup in Iran, before political Islamism would emerge, and before the U.S. would arm unmanned airplanes to kill Islamism's most violent and radical adherents, the British empire found itself besieged by Muslim protesters.6

O que tornou estes protestos particularmente significativos e surpreendentes foi a presença de vozes, até então, sufocadas pelos governantes e líderes religiosos extremistas: as dos moderados. Participantes envolvidos nos enfrentamentos antiditatoriais de 2011, ainda entusiasmados pelos anseios democráticos que embalaram a chamada Primavera Árabe, tomaram também as ruas para protestar contra a violência de seus conterrâneos e seus ideais extremistas. Muçulmanos ao redor do mundo saíram às ruas para dizer que aqueles manifestantes violentos não representavam a identidade islâmica, e que recebiam os ares democráticos e desenvolvimentistas que estão a oxigenar o mundo islâmico com braços abertos. 

É esta a imagem que se deve reter dos últimos acontecimentos no mundo islâmico: uma comunidade plural, como a nossa, que está caminhando na direção da construção democrática de seus Estados, bem como de uma sociedade inclusiva, o que implica necessariamente o desenvolvimento do respeito às diferenças. Os moderados já deram o primeiro passo.




Thaís Leo Nogueira de Paula
Secretaria Acadêmica da SONU 2012



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NOTAS:

  • 1 Segundo o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, “Muçulmano” ou “Maometano” é aquilo pertencente ou é relativo a Maomé, ou ao maometismo, ou que é sectário desta religião. Já “Árabe” é o natural ou habitante da Arábia, península ao sul da Ásia, entre o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, e que inclui região desértica de diversos Estados. Visto que a maior parte dos muçulmanos vive na Ásia e os Estados árabes contam com um sem-número de habitantes cristãos, acreditamos ser necessário enfatizar tal diferenciação.
  • 2 Causa enorme incômodo utilizar estes termos, visto que se acredita na existência de um só Mundo, coabitado por todos. Todavia, em prol da mais fácil compreensão, recorrer-se-á a esta terminologia devido a seu largo uso.
  • 3 De fato, em um primeiro momento, a agência Associated Press houvera noticiado entrevista telefônica com Sam Bacile, suposto diretor do filme, em que este afirmara ser americano israelita. Posteriormente, apurou-se que o filme havia sido realizado por Nakoula, um copta (cristão) de ascendência egípcia. Porém, mesmo após as autoridades americanas, juntamente com a mídia internacional, desmentirem tais alegações, claramente feitas para atiçar desentendimentos entre muçulmanos e judeus, inúmeros líderes religiosos e ícones extremistas continuaram a defender uma velada atuação israelense. Na agência de notícias estatal iraniana PressTV, jornalistas e comentaristas defendiam teorias da conspiração em que a CIA e Israel haveriam promovido o filme. A notícia errônea sobre a nacionalidade do realizador está disponível em: <http://www.huffingtonpost.com/2012/09/12/sam-bacile-in-hiding_n_1876044.html>. Acesso em: 25/9/2012.
  • 4 Al Jazeera. “Us runs TV ads to calm Pakistan tensions”. Disponível em: <http://www.aljazeera.com/video/asia/2012/09/20129210551107616.html>. Acesso em: 25/6/2012.
  • 5 A França recebeu da Liga das Nações um Mandato oficializando sua “administração” sobre o território libanês e parte da Síria, em 1923. Foi sob a administração francesa que as fronteiras libanesas como as conhecemos hoje tomaram forma. Mais informações em: CHAURASIA, Radhey Shyam. “History of Middle East”. Nova Delhi: Atlantic Publishers & Distributors, 2005. P. 226-230.
  • 6 “Em agosto de 1857, um século antes que as Nações Unidas declarassem o Estado de Israel onde havia sido a Palestina, antes que diplomatas Britânicos e Franceses forjassem o Oriente Médio, antes que os EUA apoiassem um golpe no Irã, antes que o Islamismo político surgisse e antes que os EUA armassem aviões sem pilotos para matar os mais violentos e radicais aderentes do Islamismo, o império Britânico encontrou-se sitiado por manifestantes Muçulmanos” (tradução livre). Disponível em: <http://www.theatlantic.com/international/archive/2012/09/the-history-of-muslim-anti-western-protests-is-older-than-obama-or-bush-drones-or-israel/262462/>. Acesso em: 27/9/2012.

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REFERÊNCIAS:


 
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