AS CONSEQUÊNCIAS DA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL NO ÂMBITO DA SAÚDE
A
tão falada crise econômica que o mundo atualmente enfrenta não é tão nova
assim. Atualmente, estamos em uma nova fase de uma crise que teve como marco a
quebra do banco Lehman Brothers, ainda em 2008, nos Estados Unidos. A
instituição, com 158 anos à época, era considerada um dos maiores operadores de
empréstimos a juros fixos de Wall Street e um dos maiores investidores no
crédito chamado “subprime” – crédito
esse de natureza imobiliária com alto risco de inadimplência. O grande problema
principiou com o aumento da desconfiança na instituição, o que levou a enormes
baixas contábeis, seguido do maior prejuízo líquido da história da instituição
e, por fim, à queda no valor das ações da empresa, visto que as negociações
para levantamento de fundos, que dariam garantias de solidez aos investidores,
fracassaram.
O
Lehman Brothers, entretanto, não foi a única instituição financeira a emprestar
dinheiro demais a quem não poderia pagar. O governo, de modo a evitar um
colapso, teve que interferir na economia, passando a injetar capitais em
determinadas instituições para evitar uma recessão ainda mais aguda. Essa
injeção de capitais significa apenas uma coisa: aumento nas despesas. Tal fato,
em uma época de recessão da economia mundial, significou o aprofundamento do
déficit público. É esse o gancho para a atual crise.
O
principal fator de endividamento dos Estados foi justamente o dinheiro público
empregado para resgatar as instituições bancárias. A esperança era de que, com
a injeção de capital público nas instituições privadas, a economia mundial
voltasse a crescer. Tal crescimento, entretanto, não foi grande o suficiente
para compensar as perdas do governo. Enquanto em 2008 a crise era bancária, em
2011 ela passou a ser fiscal, dentro das receitas dos Estados.
Em
2013 o foco da crise não é mais nos Estados Unidos, mas na Europa. O fato é que
a dívida pública dos Estados Unidos é em dólar e o país tem controle da emissão
da própria moeda. O país tinha a prerrogativa de emitir mais moeda para saldar
sua dívida, ainda que isso gerasse o aumento da inflação – tática essa
utilizada não pela primeira vez no cenário mundial. Os países europeus,
entretanto, têm suas dívidas em Euro e o órgão responsável pela emissão dessa
moeda é o Banco Central Europeu. Cada país tem uma estrutura de dívida
diferente, mas não tem poder de emitir moeda.
O
problema na Europa, desde o início, foi a dívida pública, essa ainda decorrente
das políticas adotadas para a implantação do Euro como moeda comum. Para
conseguir auxílio do Fundo Monetário Internacional e da própria zona do euro,
países como Portugal, Espanha e Grécia tem que adotar medidas de “austeridade
fiscal”, enxugando ainda mais os gastos e aumentando a arrecadação por meio de
impostos. A economia passa a ser o foco, tida como setor em recuperação, em
detrimento de setores sociais, como educação e saúde, que são esquecidos em
prol do que é considerado mais urgente.
Tais
medidas, além de suprimirem ainda mais a economia, levam a um estado de
insatisfação social decorrente dos cortes em gastos referentes aos setores
anteriormente mencionados.
Atualmente
o cidadão europeu passa por um momento de perda de garantias. Direitos que
antes eram financiados pelo estado agora devem ser patrocinados pelo indivíduo.
O corte de gastos atingiu, inclusive, os organismos internacionais, como é o
caso da Organização Mundial de Saúde, órgão mantido por repasses obrigatórios
dos países membros da ONU, a quem é vinculada, e isso restringe a atuação do
órgão no combate a doenças e na efetivação de projetos que visam salvar vidas
mundialmente.[1]
As
mudanças ocasionadas por esse período de crise
vão além dessas consequências, que foram apenas superficialmente colocadas. Os
reflexos da crise podem ser percebidos também nas condições de vida das pessoas
– aumento de estresse; diminuição da qualidade da alimentação; prejuízo na distribuição
de medicamentos, principalmente aqueles importados. As condições sanitárias são
deixadas de lado, e até mesmo as condições psíquicas das pessoas são afetadas[2],
levando a uma analogia trágica, porém necessária: é preciso lembrar todos os
suicídios que ocorreram quando da crise de 1929. Ademais, diminuem-se os
investimentos em ciência, tecnologia e inovação, configurando-se assim uma
verdadeira estagnação de uma ascensão que para muitos parecia fruto de
verdadeiro milagre, a exemplo do desenvolvimento de ações como o tratamento da
tuberculose, a prevenção da AIDS e o tratamento de outras doenças infecciosas.
Na
Grécia, por exemplo, aumentou a quantidade de infecções pelo vírus HIV, as
taxas de suicídio também aumentaram, o número de pessoas aptas a receber
benefícios por conta de doenças diminuiu entre 2007 e 2009, provavelmente
devido a cortes nos gastos. Na África, na Europa e Ásia Central, o aumento no
valor dos medicamentos importados é de até 30%.[3]
É
imperioso notar que as perdas decorrentes dessa situação de crise e dessa
mudança com relação à saúde não ficam restritas apenas à população diretamente,
mas a todos, Estado e Sociedade, de forma direta e/ou indireta, de modo que é
impossível falarmos hoje em dia de economia e não falarmos de garantias
sociais, porque o equilíbrio entre esses dois setores deve ser estabelecido. Não
se pode dar atenção a apenas um deles, pois saúde e desenvolvimento são os dois
lados de uma mesma moeda.
Não
adianta concretizar a recuperação da economia, após um trabalhoso processo,
para uma população desgastada e enfraquecida que provavelmente não terá
condições de manter a estabilidade econômica por muito tempo – o trabalho seria
afetado, e a economia sofreria cada vez mais com a diminuição da participação
financeira dos cidadãos na movimentação do setor.
Por
outro lado, reconhece-se que não apenas de saúde viverá a sociedade, embora seja
algo indispensável para que a engrenagem da coletividade continue funcionando como
de costume. Conhecendo a necessidade de atenção para esses riscos,
possibilidades de manter os investimentos na referida área deveriam ser
buscadas para que não sejam verificados fortes prejuízos a setores que se configuram
atualmente como essenciais ao Estado moderno.
Segundo
Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial de Saúde:
“[...]
uma abordagem verdadeiramente global para a recuperação econômica, que coloca vidas
e meios de subsistência das pessoas em seu centro, significa que podemos emergir
com sistemas que são mais fortes, mais eficientes e mais justos do que aqueles
que estão atualmente sob uma ameaça tão séria”.[4]
Fala-se
em crise da saúde pública, e, de fato, talvez seja esse o caminho que o mundo
segue. Assumir que os sistemas de saúde passam por dificuldades seria o
primeiro passo para que seja possível encontrar alternativas e soluções
adequadas, pois não se podem ignorar os problemas econômicos enfrentados por
muitos países e, no entanto, não é viável combater uma crise gerando outra.
Naiara Frota Teixeira
Natália Gomes de Oliveira
Natália Gomes de Oliveira
Diretoras do ECOSOC - SONU 2013[5]
[1] Quadros detalhados das contribuições recebidas pela OMS disponíveis em: <http://www.who.int/about/resources_planning/A65_29Add1-en.pdf>
e < http://www.who.int/about/resources_planning/A66_29add1-en.pdf>
[2]
FARIA, Paula de. Saúde pública e crise:
uma reflexão. Disponível em: <http://www.scielo.gpeari.mctes.pt/scielo.php?pid=S0870-90252011000200001&script=sci_arttext>
[3]KENTIKELENIS, Alexander et al. Health effects of financial crisis: omens
of a Greek tragedy. Disponível em: <http://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(11)61556-0/fulltext>
[4]Chan, Margaret. Impact of financial crisis on health: a
truly global solution is needed. Declaração disponível em: <http://www.who.int/mediacentre/news/statements/2009/financial_crisis_20090401/en/>
[5] ECOSOC - Conselho Econômico e Social das Nações Unidas será um dos comitês simulados na SONU 2013, dedicados aos estudantes de Ensino Médio. Durante os quatro dias de simulação, os participantes discutirão as seguintes temáticas: O impacto da corrupção pública na sociedade. Abordagens inovadoras e parcerias no combate à corrupção. / Avanços na promoção da saúde frente aos obstáculos ocasionados pela corrupção.